Quarta-feira, Maio 07, 2008

ossos


sao francisco catacumbas3









Desço as escadas e sinto de imediato a energia do lugar. Ossos, apenas ossos, dirá quem olha e não vê. Eu vejo. Vejo ossos, e história, e estórias de gente que se fundem com a história da cidade. Fecho os olhos e vejo os vestidos, vejo as cartolas, vejo os monóculos. Sinto os podres e o poder, sinto as festas e as angústias, sinto os discursos e os escândalos. Sinto na pele o toque dos brocados e dos veludos, e no ar o sussurro das sedas e dos segredos. Vejo a palidez das donzelas anémicas, oiço a tosse dos mancebos tísicos. Oiço os suspiros de amores platónicos e os ruídos das perversões das alcovas. É a cidade enterrada no templo. Nas paredes de pedra há nomes inscritos, nomes que guardam ossos. Aqui jaz a história da cidade.


sao francisco catacumbas2


Fotos: Catacumbas da Igreja de S. Francisco, Porto, Março de 2008
Música: Diary of Dreams, Tales of the silent city

Terça-feira, Maio 06, 2008

mimos (I)




Adoro quando os meus amigos me dão presentes que, independentemente do seu valor material, eu aprecio de sobremaneira. Mostra-me quão bem eles me conhecem. E por vezes são coisas que a eles próprios não dizem nada. Mas eles sabem o valor que eu lhes vou dar. Porque gostam de mim. Coisa boa para se descobrir acerca dos amigos.



O último mimo


‘perfect skin’

5th Sentence Tag

O A.Decker, do blog Resonant Enigma, desafiou-me com o "5th Sentence Tag". Consiste em pegar no livro que está mais perto, abri-lo na página 123, encontrar a 5ª frase, escrever um post com as três frases seguintes, referenciar quem enviou o desafio e lançá-lo a mais 5 bloggers. Então cá vai...

Facilita o desempenho desta dupla função a vantagem que a vista tem de ser um sentido de distância. Mas a percepção visual supõe sempre o recurso à memória, ou melhor, a vários tipos de memória que não dependem exclusivamente da vista. É certo que à memória topográfica e à memória icónica, que são tipicamente visuais, compete o papel principal, respectivamente na orientação no espaço e no reconhecimento de objectos.

Pág.123
O corpo que somos.
Aparência, Sensualidade, Comunicação

de Agostinho Ribeiro
Casa das letras, Cruz Quebrada

2005 (2ª edição)


Passo o testemunho à Biazinha, à by myself, ao Eduardo, à Beautiful, e ao Carlos.


Foto: Sean Kernan

Domingo, Maio 04, 2008

dia-da-mãe


Hoje recebi canções, beijos, presentes coloridos feitos por mãos pequenas cheias de amor, abraços, colos, e os dois sorrisos mais lindos do (meu) universo. E lembrei-me de ir ouvir esta música.





Oiço isto muitas vezes. Como uma espécie de memorando. Para não me esquecer do que significa ser mãe. Para nunca cair na tentação de viver as vidas dos meus filhos, ou de me tentar realizar através delas. Para os proteger sem lhes negar as experiências. Para os aconselhar sem lhes cortar as escolhas. Para os encorajar a sonhar e a voar, e estar, simplesmente, por perto, para consolar as dores e reunir os estilhaços. Para tentar ser o melhor possível este milagre que me foi permitido viver duplamente e honrar a responsabilidade de ser essa palavra de três-letrinhas-apenas.



Hush now baby, baby don't you cry
Mama's gonna make all of your
Nightmares come true
Mama's gonna put all of her fears into you
Mama's gonna keep you right here
Under her wing
she won't let you fly but she might let you sing
Mama will keep baby cosy and warm
Ooooh Babe Ooooh Babe Ooooh Babe
Of course Mama's gonna help build the wall

Pink Floyd - Mother



Sexta-feira, Maio 02, 2008

Regaleira (IV)


Repousar do esforço muscular e das coisas sentidas.
Repousar num travesseiro doce. Entre amigos.

Quinta-feira, Maio 01, 2008

Regaleira (III)

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A água flui na paisagem numa integração que transcende a estética. Dá a sensação de fazer parte de uma alquimia de propósitos desconhecidos mas conseguidos, uma vez que o ambiente é mágico, místico e mitológico. Um verdadeira ontologia lusa que, mesmo que não fosse percebida, não poderia deixar de ser sentida. A alma em estado líquido.

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Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.

Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,

Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.

É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...

Fernando Pessoa

Fotos minhas, tiradas na Quinta da Regaleira a 26 de Abril.

Terça-feira, Abril 29, 2008

Regaleira (II)





O significado real da iniciação é que este mundo visível em que vivemos é um símbolo e uma sombra, que esta vida que conhecemos através dos sentidos é uma morte e um sono, ou, por outras palavras, que o que vemos é uma ilusão. A iniciação é o dissipar – um dissipar gradual e parcial – dessa ilusão.

Ensaio sobre a iniciação, Fernando Pessoa



Seguir o fio de Ariadne por um inferius escuro e húmido, qual útero de pedra que pulsa a cada passada. Desembocar em poços e altares iniciáticos e sentir-se em simultâneo o grão e a montanha, a virgem e o punhal, o neófito e o ritual. Compreender, sem disso ter a noção instantânea, a cosmologia do lugar, e achar-se parte do grande espectáculo cenografado a meias pela Mãe-Natureza e pelo engenho humano. Sentir-se parte de um todo.





Fotos da Quinta da Regaleira, no dia 26 de Abril. Foto 1 tirada por mim, Foto 2 tirada pela amiga estranha...

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Regaleira (I)


O verdadeiro mundo encontra-se sempre no meio, no centro,
porque é aí que há ruptura de nível, portanto comunicação entre as três zonas cósmicas



Eliade, M. (s/d). O sagrado e o profano; Lisboa, Livros do Brasil
, p.50






Durante uma tarde, o centro do (meu) Mundo foi mesmo ali, na Quinta da Regaleira, na bela Serra de Sintra. Percorri o microcosmo, do inferius ao paraíso, sem saber ao certo onde começava um e acabava o outro. A minha vera peregrinatio mundi levou-me a sítios onde nunca tinha estado senão em sonhos, e com os quais vou sonhar hoje, seguramente, em sinfonias de pedra e verde…



Fotos minhas, tiradas na Quinta da Regaleira no dia 26 de Abril de 2008
Música: Circles, dos Tiamat

Sexta-feira, Abril 25, 2008

a propósito do 25 de Abril (e dos encontros adiados)


De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.


José Carlos Ary dos Santos - As portas que Abril abriu



Foto tirada daqui.



à espera que se cumpra


What happens to a dream deferred?

Does it dry up
Like a raisin in the sun?

Or fester like a sore--
And then run?

Does it stink like rotten meat?
Or crust and sugar over--
like a syrupy sweet?

Maybe it just sags
like a heavy load.

Or does it explode?

Dream deferred - Langston Hughes



à espera da (minha) explosão



Terça-feira, Abril 22, 2008

cALMA



Sea Calm

How still,
How strangely still

The water is today,
It is not good

For water
To be so still that way.

Langston Hughes




Calma a paisagem. Excepto no âmago. Revolução vivida do lado de dentro. Germina nas circunvoluções. Espalha-se nas sinapses. Multiplica-se nos neurónios. Mieliniza-se. À espera da oportunidade para explodir. O melhor fogo de artifício realidade da sua vida. Até lá, a calma serve terá que servir.






Fotos de Howard Schatz

Música: Cocorosie - The Sea is Calm

Sábado, Abril 19, 2008

about the fear of intimacy






Trust in me, just in me
Shut your eyes and trust in me
You can sleep safe and sound
Knowing I am around

Slip into silent slumber
Sail on a silver mist
Slowly and surely your senses
Will cease to resist

Trust in me, just in me
Shut your eyes and trust in me


Siouxie and the Banshees - Trust in me

(a.k.a. The Python's Song
in "The Jungle Book", by Richard M. Sherman and Robert B. Sherman)



A intimidade intimida. Mas não a exercer faz perder uma fatia significativa e importante da vida. Se tivermos sorte e habilidade, aprendemos com as más experiências. E, por vezes, julgamos que o melhor ensinamento que elas nos dão é o de evitar repetir o erro, não voltando a tentar. Mas, de repente, ocorre-me que talvez o grande ensinamento seja mesmo o de aprender a voltar a arriscar. A confiar. Confiar no instinto. Confiar nos sentidos. Sentir e permitir-se gostar. Apreciando a paisagem durante a viagem. Talvez valha a pena reflectir sobre isto.

Quinta-feira, Abril 17, 2008

apologia do beijo III





I wasn’t kissing her, I was whispering in her mouth.

Chico Marx (1891-1961)



Beijos que são sussurros. Beijos que dizem coisas. Beijos que contam histórias. Beijos que são cúmplices no silêncio. Beijos de surpresa. Beijos longamente antecipados. Beijos de ternura. Beijos de tesão. Beijos de despedida. Beijos de reencontro. Beijos de descoberta. Beijos. Lábios. Pele. Saliva. Língua. Beijos. Beija-me.



Foto de Helmut Newton
Música: Kiss of Fire, de L. Armstrong

Segunda-feira, Abril 14, 2008

blood





Não fugir. Suster o peso da hora
sem palavras minhas e sem os sonhos,
fáceis, e sem as outras falsidades.
Numa espécie de morte mais terrível
ser de mim despojado, ser
abandonado aos pés como um vestido.
Sem pressa atravessar a asfixia.
Não vergar. Suster o peso da hora
até soltar sua canção intacta.

Cristovam Pavia


Sangue. Sabe-me a sangue cada palavra derramada, cada dor oculta por trás de cada verbo, cada toque omisso, cada toada. Se no princípio era o verbo, sabia a sangue, porque o sangue é princípio, meio e fim, é tudo o que temos, e mais vale senti-lo latejar, para que não esqueçamos porque estamos vivos. Para que não esqueçamos que estamos vivos. Se toca a todos o momento da implosão para o desconhecido, então que ela seja tingida de vermelho, para que a última imagem gravada na retina seja uma das que pulsa, uma das que sente, uma das que tem sabor, e cheiro, e textura grossa que escorre. Não quero um suave adormecer, quero sentir ao máximo até ao último momento. Trincarei os lábios, se nada mais me restar. Saber-me-á a sangue. Será doce e negro o seu sabor.


Música: Killing Joke - Love like Blood

Foto de Majkí, aqui.

Domingo, Abril 13, 2008


Segunda-feira, Abril 07, 2008

semiotic



i guess we know that we dont need to talk to much. its almost semiotic. we know that we talk some kind of language. and we know how good it can get when brains meet trough bodies. it´s like fucking a wonderfull book. eager to open it just to read the next chapter.



O livro que te abalanças a ler não está com as páginas certinhas, imaculadas, conservadoras e conservadas sem rasura, não cheira a livro novo, não é a última edição, não é politicamente correcto. O livro que te abalanças a ler não tem as páginas brancas, nem lisas. O livro que te abalanças a ler está escrito numa língua que talvez desconheças, que talvez não saibas interpretar ou traduzir. O livro que te abalanças a ler não é perfeito.



Mas uma coisa te asseguro: o livro que te abalanças a ler é verdadeiro. Real. Sem subterfúgios literários ou agendas ocultas. Sem segundas intenções. A única intenção desse livro, o que te abalanças a ler, é Ser. O mais intensamente possível. Encontrar nesse processo quem o saiba decifrar, será um bónus. Precioso. Apreciado. Haja tempo para o descobrir.


Fotos de Abelardo Morell

Musica: Bach's Cello Suite No. 2 in D Minor


Quinta-feira, Abril 03, 2008

half way there



Oppression

Now dreams
Are not available
To the dreamers,
Nor songs
To the singers.

In some lands
Dark night
And cold steel
Prevail
But the dream
Will come back,
And the song
Break
Its jail.

Langston Hughes






Breathing deep.

Holding on.

Getting there.